"0 ou 1"

agosto 19, 2017

"0 ou 1"

Reflexão sobre os condicionamentos de renda e etnia e as suas relações com a arquitetura


A apresentação da proposta de Laurie Anderson a respeito da metáfora do 0 ou 1 fala a respeito da polarização cultural que se tem inseridas dentro do contexto social, dividindo em pólos opostos números tão próximos (0 e 1), porém tão distantes quando colocados lado a lado para relativizar as condições ou o mérito de algo ou alguém. Esta análise pode ser comparada às questões de polarização de dois tópicos sociais bastante interligados entre si e entre a arquitetura no contexto brasileiro: a etnia e as condições de renda dos indivíduos. Em detrimento dos processos de colonização e de "conquista" territorial, pode-se citar, a exemplo, o processo de abolição da escravatura e a consequente diáspora negra brasileira, deixada à mercê de sua sorte e completamente rejeitada em termos de apropriação de bens imobiliários, sendo forçada a ocupar periferias conforme aconteciam as revoluções urbanas, dando origem ao que conhecemos hoje como aglomerações ou favelas, onde a maioria dos habitantes detém de tez escura. O ato de não condicionar boas condições infraestruturais a tais cidadãos apenas deixa explícito o quão seletiva é a relação dos homens para com seus pertences de espaço, de forma que a arquitetura de bons agrados estéticos, infraestruturais e funcionais, passa a ter um caráter extremamente exclusivo àqueles que obtém maiores influências de renda e status na contextualização humana, o que, geralmente, tem melhora gradual em função de descendências de etnias de peles claras e feitios europeus. Além da ocorrência de tais eventualidades, pode-se levar, também, em consideração no contexto brasileiro, da predominância de pessoas de pele não-branca em situação de rua, de tal forma a serem rejeitados socialmente, o que põe em destaque a gestão arquitetônica das cidades. Denominada "arquitetura hostil", este tipo de construção costuma empregar bancos inclinados em praças e pontos de ônibus, acessórios pontiagudos embaixo de viadutos e pontes, bancos de alumínio que costumam estar sempre bem gelados, dentre outros dispositivos que visam impedir a presença de determinadas pessoas em dados locais. Esses acontecimentos reforçam as relações que o brasileiro tem com o racismo estrutural/institucional, além de contribuir para a manutenção da exclusão nas hierarquias sociais e na arquitetura, separando a sociedade por etnia e por classe.

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